domingo, 1 de fevereiro de 2015

Desprezando a tradição real

O ator Benedict Cumberbatch (foto), que representa Alan Turing num filme recém-lançado, iniciou uma campanha para que mais de 49.000 ingleses condenados, como Turing, pelo "crime" de homossexualismo recebam o perdão legal. Turing, herói da guerra contra o nazismo e pai da moderna computação, foi condenado à prisão em 1952 por ter um namorado. Sua única opção: submeter-se a um "tratamento" hormonal, que destruiu sua saúde. Proibido de deixar o país, em menos de dois anos ele se suicidou - ou foi "suicidado" pelo serviço secreto britânico, como acreditam alguns de seus biógrafos.

Entre os convidados a participar da campanha pela reabilitação dos inocentes condenados estão o príncipe Willian e sua mulher Kate Middleton. Os dois recusaram, alegando que é uma questão de governo. Uma saída capenga pela tangente, visto que a reparação da injustiça ganhou vulto quando a vovó do príncipe, rainha Elisabete II, concedeu, ano passado, o perdão real a Alan Turing. Então, quando quer, a realeza se mete em questões de governo. Só que o ato demagógico da vovó real não colou: por que perdão, se Alan Turing não foi um criminoso? E por que todos os outros condenados por serem homossexuais foram esquecidos?

Quem estranhar que em pleno ano de 1952 a Inglaterra condenasse gente honesta pelo crime de homossexualidade, saiba que até 1861 (em plena Revolução Industrial) não só era crime como tinha por única pena o enforcamento. Neste período do século 19 mais de 300 pessoas foram executadas por isso. Depois de 1861, a pena foi transformada em "de 10 anos a perpétua" - e assim permaneceu até além da metade do século 20. Em 1955, houve cerca de 2.500 processos contra homossexuais na Inglaterra, com mais de 1.000 condenações. Só em 1967 a homossexualidade deixou de ser crime na Inglaterra e no País de Gales. No Brasil - coisa de terceiro mundo - a homossexualidade deixou de ser crime em 1822 - ou seja, desde que o Brasil passou a existir como país. Os gays da Irlanda do Norte tiveram de esperar até 1968 pela "liberação", os da Escócia até 1980 e os da ilha de Man até 1992.

O mais preocupante na atitude de William - um dos melhor colocados no grid da sucessão real - é seu desprezo pela maioria dos reis ingleses que o precederam. Afinal, monarquias precisam de tradição para se manter e se há uma tradição na Corte de St. James é a de reis homossexuais. Citar a todos seria cansativo, limitemo-nos aos mais famosos: Eduardo II, Ricardo II, James I e, a cereja do bolo, Ricardo I,  Coração de Leão - que não falava inglês, odiava a Inglaterra, amava perdidamente o jovem rei Filipe da França e morreu sonhando com a lança do Saladino - sem deixar herdeiros, claro.


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