segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Os heróicos defensores da Pátria


Desde 2005, a Patrulha da Fronteira dos Estados Unidos (US Customs and Border Protection), atuando junto à fronteira mexicana, já matou pelo menos 42 pessoas. Sendo um órgão federal vinculado ao Department of Homeland Security, desde os mal contados episódios do 11 de setembro seus agentes são praticamente intocáveis, não importa o grau de violência gratuita que empreguem em sua ação.

Os mortos são mexicanos que cometeram o terrível crime de tentarem entrar nos EUA sem a devida documentação.  Anastazio Rojas, por exemplo, já vivera 25 anos trabalhando na Califórnia e já tinha cinco filhos nascidos nos EUA. Ao tentar cruzar a fronteira em San Ysidro (cidade próxima a San Diego), foi detido, sem oferecer resistência. Apesar disso, uma dúzia dos rambos da Border Patrol algemaram suas mãos a seus pés e, jogando-o no asfalto em frente ao posto de guarda, por meia hora se dedicaram a chutar e bater em seu corpo, além de baixarem suas calças e lhe aplicar diversos choques com uma arma taser.

Levado ao hospital com vários ossos quebrados, Anastazio morreu três dias depois por causa das injúrias. A cena macabra foi filmada por várias testemunhas, com seus celulares. O médico legista de San Diego classificou a morte como homicídio, mas a procuradoria federal recusou-se a abrir um processo, dizendo que a ação da patrulha fora uma “resposta apropriada”. Os vídeos das testemunhas desmentiram a alegação de que Anastazio apresentara uma resistência hostil à prisão. As câmeras da própria patrulha estavam “desligadas” na ocasião. Nenhuma providência legal foi tomada.

José Rodriguez, de 16 anos, foi morto a tiros do lado mexicano da fronteira, por membros da Border Patrol, que atiraram a partir do lado americano. O relatório oficial do incidente afirma que o menino estava jogando pedras contra a patrulha. Ele foi atingido por 10 tiros; nenhuma pedra atingiu os valorosos vigilantes. Como Rodriguez, outros 9 mexicanos foram mortos por “atirarem pedras”. Qualquer semelhança com os meninos palestinos assassinados pelos soldados israelenses pelo mesmo crime de jogar pedras não é mera coincidência.

O jornalismo especializado estadunidense afirma que estes não são casos isolados. Os patrulheiros não recebem treinamento adequado e sua extrema violência apenas aumenta com a absoluta impunidade de que dispõem, na esteira da histeria patrioteira que vem desde os desmandos de Bush filho. Dezesseis congressistas reclamaram com a Secretary of Homeland Security, mas nenhuma providência foi tomada. O presidente Obama também não toma conhecimento do problema. Lembra a velha frase: “Pobre México, tão longe de Deus e tão próximo dos Estados Unidos”.

Quem quiser saber mais, pode ler o jornal inglês The Independent; os vídeos do massacre de Anastazio Rojas estão no Youtube.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Happy Hour

Barack Obama, David Cameron e Helle Thorning Schmidt, respectivamente governantes dos EUA, da claudicante Inglaterra e da Dinamarca, todos países do primeiríssimo mundo, num momento de descontração digno de uma happy our, se autofotografaram sorridentes e festivos... em pleno memorial fúnebre de Nelson Mandela. Imaginem se os governantes da África do Sul, do Brasil e de Cuba (que lá também estavam, embora mais comedidos) tivessem feito o mesmo durante os funerais de John Kennedy: a grita que os estadunidenses fariam diante de tão flagrante desrespeito. Coisa de gentinha do terceiro mundo, diriam...

Embora Kennedy tenha sido apenas um político como outro qualquer, que virou "santo" quando foi morto pela Máfia, que se sentiu abandonada após ter ajudado a elegê-lo, e Mandela tenha sido um dos maiores líderes da humanidade, ambos mereciam todo o respeito em seus memoriais. Claro, os EUA e a Inglaterra nunca respeitaram os negros da África do Sul. Até 2009, Mandela constava da lista oficial de terroristas dos EUA. Tatcher, que, da mesma forma que o fantoche hollywoodiano Ronald Reagan, mais de uma vez o classificou como terrorista em seus discursos, foi obrigada a voltar atrás pela pressão de países africanos e asiáticos, que ameaçaram sair da Comunidade Britânica. Os EUA e Israel foram os grandes aliados do apartheid, fornecendo dinheiro, tecnologia, apoio bélico e armas aos racistas, então não é de espantar que Mr. Obama, mesmo sendo meio negro, não estivesse dando muita bola para a cerimônia de que participava.

Com líderes do primeiro-mundo como esses três, já dá para sentir uma enorme saudade antecipada do Madiba.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Os drones do Sr. Obama


Esta menina, de 9 anos, é  a paquistanesa Nabila Rehman. Ela está prestando um depoimento frente ao Congresso dos EUA, sobre o que aconteceu em sua aldeia, no Waziristão do Norte. Em 24 de outubro de 2012, um drone (avião não tripulado) americano atacou a aldeia e matou sua avó, Mammana Bibi, de 67 anos, uma parteira querida pela população local.

A imprensa americana disse que 4 ou 5 terroristas foram mortos no ataque, mas é mentira, morreu apenas a idosa senhora e ficaram feridos seus netos, Nabila, então com 8 anos, e o menino Zubair, de 12 anos. Não é bem uma novidade, mais de 200 crianças já foram mortas em ataques semelhantes, vários idosos e outros adultos inocentes. Os próprios americanos calculam que 30% dos mortos em tais ataques são civis inocentes; entidades internacionais acreditam que a percentagem é bem maior.

A Anistia Internacional classifica o uso de drones pelos EUA como crimes de guerra. Já Rafiq-ur-Rehman, filha da senhora morta e professora primária na escola local, não sabe como defini-los. Em seu depoimento, ele pergunta: "Como explicar a meus alunos uma coisa que eu não compreendo?" - pergunta ela, que não sabe como combater o medo que se apossou das crianças. "Tudo que pedimos", continua ela, "é que os americanos nos reconheçam os direito humanos básicos que eles exigem para seus próprios cidadãos".


Zubair Rehman estava com a vó quando ela foi morta. Era o último dia do Ramadã e os dois conversavam, alegres, sobre as festividades do Eid, o fim do mês sagrado, no dia seguinte. Zubair, gravemente ferido, passou o Eid no hospital, sendo operado. Ele e as demais crianças do lugar só brincam, agora, nos dias nublados, quando não há incursões de drones. Nos dias claros e ensolarados, ficam dentro de casa, embora isto não constitua segurança. O medo se instalou e, mais do que o medo, a revolta contra os assassinatos indiscriminados de civis que se ocupam apenas de suas vidas.

Nenhuma autoridade, paquistanesa ou americana, apareceu para ver o resultado do ataque de 24 de outubro. Ninguém foi indenizado, ninguém recebeu qualquer explicação. Exatamente como em centenas de outros ataques semelhantes, com vítimas semelhantes. Barack Obama, Prêmio Nobel da Paz, já permitiu 364 ataques de drones no Paquistão, contra 53 da era Bush. Ataques confirmados. Os que conseguiram ser mantidos secretos não entram na conta. Muitos parlamentares americanos mostraram-se indignados diante dos depoimentos e exigiram uma investigação de alto nível. Bem, sabemos o que vale a palavra de políticos. A professora Rafiq continuará sem conseguir explicar o inexplicável.

Quem quiser saber mais, visite o jornal inglês The Independent.